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PERDER BEM por Filipe Nunes Vicente

05.10.22

Não sei qual é a minha zona de conforto.

Zona de conforto. Encontrava este termo em jornais e artigos americanos. Nunca imaginei que  viesse a ser  usado no país da  nêspera ( deitada muito calada a ver o que acontecia) do Mário-Henrique  Leiria e com tantos mexilhões.

Deixemos os jornalistas de negócios. Podemos  ver a coisa como um artefacto contrafóbico. Do grego zone - cinto, faixa,  cintura -  para o zona latino aplicado à geografia.  Um jovem oficial está sitiado em Sebastopol, Crimeia, Inverno de 1855.  Nicolai Petrovich é o protagonista de O Desbaste do Bosque. Nas vésperas de mais uma batalha ouve os acordes de Lisanka e de uma polka, Katienka. Umas taças de chijir ( vinho não fermentado), enrolado na peliça, o gorro enfiado até aos olhos, dormiu com esse sono especial forte e pesado que se tem nos momentos de inquietação e de preocupação perante o perigo. E pronto, temos o Tolstoi ( que esteve em Sebastopol)  a definir a coisa muito bem.

Duvido que  o mexilhão se sinta muito confortável no mar de Moledo e desconfio ainda mais que a nêspera do Mário tenha apreciado o que a velha lhe fez. A zona de conforto é o anti-destino.

02.10.22

As relações amorosas são complexas, tenho de as trabalhar,  isto não pode ser deixado ao acaso.

Complexa foi a guerra da Crimeia, ando de volta dela há ano e meio. Gregos, russos-gregos, beis, otomanos, ingleses, eslavos, walaquianos etc. As relações amorosas são do mais simples que existe. Peguemos em dois grandes grupos: as paixões e as relações duradouras.

As paixões até  uma lagartixa as entende:  um par de pernas até ao pescoço, um cartão de crédito supergold, a mudança de idade. As relações duradouras são política da junta de freguesia: fazes um benefício tens votos, prometes e não cumpres vais de vela, diz a verdade só quando não puderes mentir.

Já aqui contei. Final dos anos 20 século passado. Beryl Markham foi a primeira mulher  a usar a avioneta em exploração do mato ( Tanzânia)  para fins de safaris.  Perguntaram-lhe  por que se envolveu com  o barão Bror Blixen ( sim, o que foi  casado com a Karen Blixen,  née Dinesen, do África Minha). A resposta dela : We were alone in  elephant country...drinking champagne.

26.09.22

Tenho maus pensamentos, sou vingativa em imaginação.

Óptimo. A imaginação é como o sonho: estamos lá mas com uma coroa de plástico na cabeça. Ainda por cima esses maus pensamentos guardam-te  de más acções. Estobeu atribui a Antifonte ( não é líquido):  Quem não desejou nem experimentou o que é mau e torpe não é prudente. Os maus pensamentos podem assim ser uma selecção adaptativa. Pensar em lixar o outro não é lixar o outro. Um leão macho recém vitorioso na luta contra o anterior macho residente não pensa em matar as crias do bando: mata-as. As fêmeas entram em cio e ele propaga os seus genes.

Os maus pensamentos também são uma categoria escorregadia. Imagina que tens bons pensamentos sobre um gajo. Imagina-te a ir beber um copo com o moço, a rir e a conversar, uma semana  de troca de  mensagens infantis e depois cama. É bom não é? E se o gajo for o gajo da tua irmã?

Tal como no sonho os pensamentos não são bons nem maus, não existe uma inscrição moral. O que fazemos é o que conta. Por isso só às vezes somos leões: não pensamos.

24.09.22

Não existe verdadeira amizade, sinto-me traído.

Parece-me impossível: se te sentes traído por amigos é porque os tinhas, portanto, existiam. A dita  amizade  é um produto da  evolução. Os humanos imaginaram relações fora da competição - sexual, recursos , territórios, ideias - e a coisa corre muitas vezes bem, mas é apenas imaginação.

A história é um rolo compressor. Diógenes Laercio inventou-a, Montaigne citou-a e Derrida popularizou-a: Aristóteles terá dito: Ó meus amigos, não há nenhum amigo. A verdade é que o estagirita não escreve isso. Na Ética a Nicómaco ( Nic. Eth. 1171 a) discorre sobre  a amizade como qualquer pessoa no facebook: são poucos, devem ser bons, estão lá para os bons e maus momentos etc.

As amizades nascem, envelhecem e morrem como as flores. Não existe nenhum mistério. Já o número exacto de mudas da água do bacalhau nas 24h a seguir às primeiras seis mudas consecutivas, esse sim, é um osso duro de roer.

 

 

22.09.22

Não suporto a hipocrisia. Desprezo-a.

A hipocrisia, como o nome indica, é um efeito de palco. Deduzo, portanto, que não gostas de teatro.O que te posso aconselhar? Coisas da plateia: o assassínio, a guerra, o suicídio, a sepultura em vida como da pobre Antígona. Se disséssemos sempre a verdade, as relações, quaisquer relações, não duravam mais de dez minutos. Incluindo as tuas.

Podemos ir por outro caminho de pé-posto. Quando as pessoas me saturam afasto-me. Gerir a distância é uma arte difícil ( sobretudo em combate), eu sei, mas útil. Os humanos  aperfeiçoaram  a deontologia da distância: linguagem corporal, silêncios tecnológicos (  a catrafada de dispositivos é um maná), a palavra escrita e a falada. Se aprenderes a interpor uns metros mentais ( às vezes até físicos) entre ti e quem te satura não precisas de devaneios  sobre a sinceridade.

Se o outro não perceber a distância tens sempre o bom e velho efeito de palco: hoje não posso, estou um bocado constipado. E fungas.

 

15.09.22

Amores? Não quero compromissos, não quero ficar presa nem ter  desilusões.

Ora aí está um bom roteiro. Compreendes que nada defenderás nem ninguém lutará por ti. Não conseguirás distinguir a vitória da derrota. Até aqui tudo catita, a ataraxia faz parte do jogo.

Onde o refrigério não funciona é na parte das desilusões. A minha amiga imagina que elas nascem  das traições e dos abandonos a que os outros nos votam. Um amor que se escapa pelas frinchas dos anos, um par de lampanas mal contadas sobre mensagens  suspeitas no telemóvel, enfim o desfile habitual. Não digo que essas coisas não nos ponham com monco de peru, mas não são as piores. Nem de longe nem de perto.

Por um lado os tais compromissos, as promessas, o  arranjar da casinha para criar gaiatos ou canitos são o que são: vento. Ora vem de feição ou vai de mistral. Só se fores tola é que confias no vento.

Por outro lado, e mais importante, sobre  a desilusão ninguém faz  o trabalho melhor do que tu. É a tua tola que não dá para mais, a tua barriga que cresce todos os dias, a asneira que fizeste ao volante e que pagas durante anos, a cobardia de não conseguirres mandar o chefe levar com o frangalho na anilha etc.

Não duvides: se queres alguém que te desiluda vê-te ao espelho todos os dias.

 

 

 

11.09.22

Tenho pensamentos que não me saem da cabeça. Dizem que sou obsessivo.

A máquina não aprecia deslealdades. Exceptuando ganhar muito dinheiro, ser o melhor e ficar eternamente jovem, todas as outras obsessões são proibidas.

Eu por exemplo tenho obsessão com o bacalhau. Já só compro o da Caxamar. Parece caríssimo mas fica barato, não pagas rabos  nem postas esquálidas e esbranquiçadas recheadas de espinhaços. A demolha segue regras exemplares. Seis mudas nas primeiras seis horas. Depois mais três mudas nas 24h seguintes. Sempre no frio. A qualidade é emocionante. No ponto certo de cura e salga. Nunca cozido, só escaldado. Se quiseres viajar ao tempo do Aquilino prepara a punheta, a verdadeira: não o demolhes, corta lascas anoréxicas, come-as com pão escuro, um fio de azeite e tinto rude. Nas tabernas desse tempo era o ganha-pão de quem queria vender muito vinho aos seca-adegas.

Existem, portanto, obsessões vadias que têm de ser protegidas. São as que escapam às da moda e aos psis. Como as distingues dessas? Não pensando muito nisso. Vive com elas, não para elas.

 

 

08.09.22

Vou ao cemitério de vez em quando, mais por obrigação do que por outra coisa. A falta que ela me faz é aqui em casa, foram quarenta  anos juntos. 

Para já evita as fotografias. Estou convencido de que há lá um diabo ou um tipo do impostos, sobretudo  nas emolduradas.

Soluções não existem, mas problemas posso servir. Esta é a situação  que devia autorizar a psicose. Serve-lhe  uma salada de maçã e queijo fresco, vai à  praia, dá-lhe  a mão e borrifa-a com água bem salgada. Ao serão vejam um filme juntos e pisquem um tinto unoaked. Pela noite alta deita a cabeça na almofada ao lado dela e sorri.

A alternativa é lavar os  dentes todos os dias e receber os elogios pela compostura.

07.09.22

Às vezes nas terapias proponho uma coisa ( uma mudança comportamental, uma interpretação etc). A pessoa contesta, discutimos e digo-lhe então está bem, faz/analisa como entendes, tens razão. A pessoa fica desconcertada e bem: para fazer/pensar como quer não precisava de pagar uma sessão.

Existem variantes. Conheço uma pessoa que inventa coisas sobre o passado dos outros. Nas discussões apresenta as invenções como factos. Conheci outra que  me dizia sempre "ora bem vejo que estamos aqui a chegar a um consenso"  o que impedia qualquer debate. E  há esta:

Tenho de ter sempre razão. Percebe... nas discussões e assim. Isto às vezes é cansativo,  mas fico desconsolada se não acontece.

Respondi-lhe assim:

Percebo a necessidade, é normal,  mas interessa-me  esse desconsolo. Não ter razão sobre uma coisa  implica apenas  a coisa. Ou porque não a  sabíamos ou porque dela estávamos distraídos. As coisas não sofrem, logo não se desconsolam.

Ora bem, apesar disto tu ficas desconsolada. Curioso, é como se tu fosses  as coisas sobre as quais discutes. É  como se tomasses as dores de uma data, do nome de um autor, de um número. É desconsolante.

05.09.22

Ouço isto muitas vezes. Fica-me nos ouvidos como o som mole da primeira  trinca  nas fraudes que vendem por aí a passar por  bolos de bacalhau ( quase sempre uma argamassa que nem é de bacalhau, é de paloco)

Sinto-me  desinteressada das coisas boas. Já não me dão prazer, acho-as enfadonhas. Culpo-me disto, é verdade, mas não posso evitar.

Ele há coisas mais fáceis de resolver. Julgamos que são as grandes tragédias as mais difíceis de arrumar, mas não é assim. Estas  resolvem-se por si: ou cais ou segue sem frente. Já a fadiga de Cápua implica uma actualização permanente.

Uma linha de escavação, conselho do meu amigo Epicteto ( Encheiridion, LIV): os prazeres mais repetidos são os que  raramente nos proporcionam a maior satisfação. Ora bem: teremos aqui um palão a contar lampanas? Não creio. Hoje como na velha Roma ( o gajo era grego mas viveu lá) queremos prazer. Nada contra, claro. A Beatriz Costa ( sim, a da franjinha) disse uma vez que o seu maior prazer era um copo de água fresca quando tinha sede. A menina da rádio resumiu numa frase a escola do Arco acerca disto: o mais estelífero prazer é o que satisfaz a necessidade. Se persegues os prazeres como um podengo maníaco, a tua necessidade acabará por ser...não ter prazer nenhum.

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