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PERDER BEM por Filipe Nunes Vicente

29.04.22

Não podemos viajar em terras que não tenham arquivos,  dizia Gasset ( em La Teologia de Renán), o filósofo vive entre as coisas que se diz terem morrido. Sou apenas um mecânico enfarruscado, a minha garagem é de bairro e não tenho multibanco, mas com o tempo fui-me especializando nos arquivos das vidas das pessoas. E que coisas lá há...
Não me interessa a pantomina psicanalítica cheia de jargão  vazio  que faz dos arquivos um funeral da autonomia do sujeito à mercê das explicações do lançador de búzios atrás do divã. Interessa-me o que lá está enquanto parte viva e consciente do sujeito. Ou seja,  interessa-me como é usado o arquivo.
No outro dia uma mulher jovem acabou por  me dizer: Não gosto do meu pai. Deve  haver poucas coisas mais difíceis de assumir e  precisou de grande coragem.  Contraria um mecanismo político-familiar e faz tábua rasa da genética? Tanto melhor.

Ela não  usa o arquivo como depósito de material acusatório, antes como  elemento estruturador da sua identidade. É a filha que não gosta do pai, a filha que guarda uma  coisa que se diz ter morrido.

 

28.04.22

Separarmo-nos de alguém não tem segredos. O outro passa  a suplente, depois  deixa de ser convocado e finalmente é posto na lista de transferências. Agora separarmo-nos de nós é uma história de massacre. De Profundis, Valsa Lenta é um bom guia.
Sem memória esvai-se o presente que  simultaneamente já é  passado morto. Queria o Cardoso Pires dizer ( atrevo-me eu) que é a memória que faz com que o tempo não seja apenas medido mas também sentido. Um demenciado diz que vai ali falar com a mulher que já morreu há uma dezena de anos.  Petrarca consola o viúvo: espera-te  a liberdade, já não tens adversário.  É terrível e nem  todos entendem, mas o Cardoso Pires colhe  os abrunhos.

A memória é uma advogada  de barra. Quando  julgamos ter provado os factos ela puxa de um articulado e obriga-nos a recordar outros. As memórias dos meus filhos quando eram pequenos são ensombradas pela impossibilidade de recuperar esses instantes. Por vezes chego ao ponto de invejar os doentes demenciados que todas as semanas vejo. Uma estupidez que o Cardoso Pires cura.

23.04.22

 

Uma discussão interessante  é feita por Cícero no  Tratado do Destino ( IX,17). Convida Diodoro, Epicuro e Crísipo: Tudo o que acontece  teve de acontecer. As proposiçoes sobre  o futuro  são tão verdadeiras como as sobre o   passado  ainda que nestas a impossibilidade de as modificar  sejam aparentes. Já sobre o futuro essa aparência não é tão evidente.
Isto é um dos eixos do estoicismo. Tudo o que aconteceu teve de acontecer representa o aceitar da vida no que ela configura  de  luto pela nossa omnipotência.  A nota sobre a diferença entre o passado e o futuro é deliciosa. Aparentemente podemos modificar a representação do nosso  passado ( a culpa foi de X, não mereci Y, Z afinal foi bom). Já quanto ao futuro a tendência para o reeducar é outro osso.
 
Muita  da angústia que por aí grassa advém desta continuidade da falsificação. Como reorganizamos o passado de acordo com as conveniências do presente, imaginamos que o futuro pode ser igualmente arquitectado. Uma  leve suspeita porém nos incomoda.  Se  renegamos o passado para melhor o poder suportar tememos  que as  proposições  que enunciamos sobre  o futuro ( ambições, desejos, grandes sucessos) também  não sejam uma maravilha de solidez.
Não é de admirar a angústia permanente, o reexaminar sucessivo e gaguejante do caminho que nos aguarda.  E isto tudo enquanto desperdiçamos vida.

21.04.22

 

Para rematar o texto anterior sobre a colonização parental. É verdade que existem outras câmaras de video-vigilância ( purgo-me escrevendo estes termos orwellianos). Quando os filhos já são adultos é altura de fazer o balanço: demos ou não o nosso melhor para piorar as coisas? Então alinhavemos umas coisas sobre ecologia parental.

Nas Preocupações  de um Pai de Família ( uso a tradução de Willa  e Edwin Muir), uma curtíssima história de Kafka, aparece este ser: o Odradek. A palavra é  de origem eslava ou talvez a adaptação eslava do antigo alemão. Um ser meio-mendigo meio-pedaço de madeira, quase um espantalho feito de pedaços de roupa velha: quando fala soa como o restolhar de folhas caídas, escreve o pai de família. Estará sempre  a rolar pelas escadas, aos pés dos meus filhos  e dos filhos dos meus filhos. A ideia de que me sobreviverá é particularmente  penosa.

Tudo isto pode ser o que quiserem. Para mim é o que todos os pais deviam sentir: estamos de passagem, estraguemos pouco.

19.04.22

Uma das piores consequências da lalangue  psi foi a crença religiosa no determinismo das experiências infantis. Pais ausentes, mães  frias, proibições, divórcios etc. Muitos adultos que acompanho estão convencidos de que ficaram marcados e isso determina as suas escolhas actuais.

 É preciso fazer falhar a educação que recebemos ( dizia o João dos Santos). Isto nada tem de revolucionário, é apenas inovação. Significa que temos de olhar de novo para o passado e escolher o que queremos  não repetir e o que desejamos manter. Como em todas descolonizações tal trabalho  não se faz sem alguma violência. Por exemplo  reeditar a nossa relação com a casa original. Destrinçar  o laço de poder com que ela costuma embrulhar o presente emocional.

Desenvolvendo um bocadinho. Ainda que a associemos  à adolescência ou ao início da vida adulta, a força  da herança da colonização parental encontramo-la também em  pais e até  em...avós. Perdi a conta de maduros que atribuem à herança colonial familiar muitos dos seus problemas, incapacidades, revoltas interiores dilacerantes. Em muitos casos com boas razões para isso, mas não deixa de ser notável a forma como passam um atestado de menoridade às suas vidas adultas.

Sempre  que sou chamado a ajudar tento  bater neste ponto: o que somos em adultos é da nossa responsabilidade. Claro que existem casos pontuais de terrível e imorredoira herança mas são poucos. Na maior parte das vezes apenas arranjamos uma muleta mental que arquiva as  nossas fraquezas no museu colonial.

16.04.22

Marie Bonaparte, bisneta de Napoleão, financiadora do movimento psicanalítico, aluna de Freud, orfã de mãe com um mês  de idade : o nosso sentido da passagem do tempo tem origem no sentido da passagem da nossa própria vida. Quem diz que o passado é inalterável não sabe o que diz. A Marie sabia o que dizia. Procurou a cura psicanalítica  para sua frigidez e até se  submeteu às cirurgias de um chanfrado-impostor, o  dr. Halban em Viena. Diz-se que foi ela a pagar o resgate aos nazis para Freud poder fugir para Inglaterra.

Regressemos ao osso. O passado é feito de duas categorias: o acontecimento e a  percepção do acontecimento.  Esta é perfeitamente alterável porque é sentida.  Um acontecimento ocorrido há vinte anos pode ser hoje sentido de forma tão diferente que passa a ser um acontecimento...novo. O que foi uma coisa terrível tornou-se numa banalidade, o que era um detalhe enevelhece mal e acaba por ficar guardado como uma desgraça. Uma zanga de  amigos, uma discussão com o pai, um amor perdido, o que quiserem.

Do ponto de vista psicoterapêutico este  passado sentido conta tanto como o outro. Talvez até mais: é o nosso passado.

 

13.04.22

Benjamin (Infância Berlinense) e  o telefone:  poucos conhecem a devastação que o seu aparecimento causou no seio das famílias. Conta  como o pai se entregava à manivela até se esquecer da vida dominado pelo transe. Benjamin era mais prático: rendia-me  à primeira proposta que me chegava através do telefone.

Não gosto do telefone e do seu neto, o telemóvel. Por razões tristes e antigas, mas também por uma outra bem prática: não existe contacto visual. Preciso dele para tudo. Sim, há as videochamadas mas tenho sempre a sensação de estar a falar no vídeo-porteiro. Tanto vídeo, tantas palavras desconchavadas.

No outro dia  uma rapariga estava a contar-me  como tinha acabado a relação amorosa. Era uma primeira entrevista apenas destinada  a fazer  a história clínica. Loura plastificada, lânguida, deprimida, responsabilizando todos por tudo. A  coitada da caneta já escrevia sozinha.  Até que  ela me conta as palavras  finais da ruptura de uma  forma que me acordou: ela estava numa cidade, ele noutra. Por telefone? Acabaram por telefone? Responde ela: Sim, por sms.

É fantástico como a  tecnologia facilita  a vida até  a dos  que não a vivem.

09.04.22

Chorar alivia?

Tens um novo advogado, o dr Bucefálo. Nada na sua aparência  te  faz recordar que ele foi em tempos um general de Alexandre da Macedónia". Adoro o Kafka humorista-depressivo das pequenas histórias  ( algumas nem meia página têm)  e esta é a abertura  de "O novo advogado". Trago-a porque nos pode ajudar a responder à pergunta que titula este texto.

Nem sei quantas pessoas choram à minha frente todas as semanas.  Há muitos anos que é assim. O enorme carregador de lenços de papel é mudado todas as semanas. O lado bom: ainda sinto o sofrimento delas ( empatia dizem os burocratas). O lado menos agradável é que estas parlendas fazem-me pensar se não ando há muito tempo a  viver a expressão emocional dos outros. Uma espécie de vampiro de muletas. Adiante. Este choro é diferente, claro:  a pessoa está num contexto terapêutico e é  costume aliviar-se .O outro choro, o solitário,  interessa-me mais.  Deixo de fora o choro de alegria, não me diz nada  a não ser no estádio da Luz.

Aprendi que se choramos de angústia antecipada o choro não alivia, até aumenta a ansiedade, mas se choramos por causa do que já se passou melhoramos  um  cadinho. O mistério? Por acaso nenhum. A descarga emocional é inevitável e obrigatória e a alma alivia-se como a bexiga. Já o amargo das lágrimas, o que interessa, depende se somos o dr. Bucéfalo ou um general de Alexandre: prefiro o advogado experiente nas aboízes das leis ao general deprimido na enfermaria.

07.04.22

Conheço-os bem, sou um deles.

A representação comum e  estereotipada da alegria: grupo, saúde física, risos, natureza. Se colocasse aqui uma equivalente  da depressão escolheria a  imagem de uma pessoa com olheiras e enroscada na cama com as mãos na cabeça. Estas representações têm em comum o código corporal, a tradução corporal dos estados  mentais. O que acontece  quando essa tradução não existe?
Há pessoas deprimidas que nunca  disseram aos outros que se sentem deprimidas. E bem: os outros não acreditariam. São pessoas que riem, trabalham, dormem mais ou menos bem, convivem, fazem desporto, não tomam antidepressivos. Então e podem estar deprimidas? Podem. E às vezes  muito

O que a vulgata não conta é que o tom depressivo pode conviver com um estilo de vida dito  normal e até  muito agradável. Isto acontece porque  alguns  de nós  orientam o pathos depressivo para fora da corrente quotidiana, mas há mais. A tradução comportamental resulta da falta de controlo. Por exemplo quando estamos encolerizados e nos portamos como tal. Os deprimidos camuflados exercem uma  vigilância apertada sobre o afecto depressivo: o  medo, a angústia e o deslace  da vida  são mantidos  em regime de apartheid do quotidiano normal. Dir-se-ia que um contrato psicossocial se estabelece: podes ser deprimido se não  pareceres um.
Muitos e variados motivos  podem ser os culpados. Há pessoas que deprimiram em função de acontecimentos, outras arrastam  fastios de infância mal resolvidos, algumas exprimem heranças genéticas ou ganchos de direita que  levaram  a meio da vida. Seja como for todas resolveram casar com a depressão sem se deixar dominar por ela. Por vezes estes deprimidos camuflados retiram até algum prazer em dominar a melancolia e  o pessimismo . Outros conseguem arranjar nichos ecológicos para  a depressão brincar à vontade.

03.04.22

Um dispositivo   mental para atenuar a angústia depressiva: planear. Isto obriga o sujeito a um duplo movimento porque não só o faz contar  com o mundo exterior  às suas tristezas como o força a projectar-se no tempo. São dois cartuchos de calibre grosso.
O sentir depressivo é ensimesmado. Alimenta-se do escrutíno sistemático  do que corre mal, das nossas fraquezas e azares. Por instinto  fechamo-nos, engolimo-nos, defendemo-nos do exterior. Planear uma acção obriga-nos a olhar para fora.

Por outro lado o projectar-se no tempo ataca a porta principal da depressão: as expectativas negativas. A bem dizer todas as expectativas são negativas, mas não nos vos quero convencer da linha estóica: já desisti há muito tempo. Fiquemos então com meia receita. Se planeamos fazer alguma coisa - ajudar alguém, um pequeno prazer etc - isso força-nos a rever o pessimismo temporal. Dir-me-ão: se é tão simples por que é tão complicado?

O problema reside na natureza dos planos. Frequentemente elaboramos ou dizem-nos para elaborar planos  quinquenais e pesados que nos parecem inatingíveis. O negócio é compartimentar o dia e traçar pequenas subida de colina, abrir picadas modestas. Quando tens um acidente e partes as pernas e vais fazer fisioterapia não começas a correr no primeiro dia pois não?

 

 

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