Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

PERDER BEM por Filipe Nunes Vicente

15.09.22

Amores? Não quero compromissos, não quero ficar presa nem ter  desilusões.

Ora aí está um bom roteiro. Compreendes que nada defenderás nem ninguém lutará por ti. Não conseguirás distinguir a vitória da derrota. Até aqui tudo catita, a ataraxia faz parte do jogo.

Onde o refrigério não funciona é na parte das desilusões. A minha amiga imagina que elas nascem  das traições e dos abandonos a que os outros nos votam. Um amor que se escapa pelas frinchas dos anos, um par de lampanas mal contadas sobre mensagens  suspeitas no telemóvel, enfim o desfile habitual. Não digo que essas coisas não nos ponham com monco de peru, mas não são as piores. Nem de longe nem de perto.

Por um lado os tais compromissos, as promessas, o  arranjar da casinha para criar gaiatos ou canitos são o que são: vento. Ora vem de feição ou vai de mistral. Só se fores tola é que confias no vento.

Por outro lado, e mais importante, sobre  a desilusão ninguém faz  o trabalho melhor do que tu. É a tua tola que não dá para mais, a tua barriga que cresce todos os dias, a asneira que fizeste ao volante e que pagas durante anos, a cobardia de não conseguirres mandar o chefe levar com o frangalho na anilha etc.

Não duvides: se queres alguém que te desiluda vê-te ao espelho todos os dias.

 

 

 

11.09.22

Tenho pensamentos que não me saem da cabeça. Dizem que sou obsessivo.

A máquina não aprecia deslealdades. Exceptuando ganhar muito dinheiro, ser o melhor e ficar eternamente jovem, todas as outras obsessões são proibidas.

Eu por exemplo tenho obsessão com o bacalhau. Já só compro o da Caxamar. Parece caríssimo mas fica barato, não pagas rabos  nem postas esquálidas e esbranquiçadas recheadas de espinhaços. A demolha segue regras exemplares. Seis mudas nas primeiras seis horas. Depois mais três mudas nas 24h seguintes. Sempre no frio. A qualidade é emocionante. No ponto certo de cura e salga. Nunca cozido, só escaldado. Se quiseres viajar ao tempo do Aquilino prepara a punheta, a verdadeira: não o demolhes, corta lascas anoréxicas, come-as com pão escuro, um fio de azeite e tinto rude. Nas tabernas desse tempo era o ganha-pão de quem queria vender muito vinho aos seca-adegas.

Existem, portanto, obsessões vadias que têm de ser protegidas. São as que escapam às da moda e aos psis. Como as distingues dessas? Não pensando muito nisso. Vive com elas, não para elas.

 

 

08.09.22

Vou ao cemitério de vez em quando, mais por obrigação do que por outra coisa. A falta que ela me faz é aqui em casa, foram quarenta  anos juntos. 

Para já evita as fotografias. Estou convencido de que há lá um diabo ou um tipo do impostos, sobretudo  nas emolduradas.

Soluções não existem, mas problemas posso servir. Esta é a situação  que devia autorizar a psicose. Serve-lhe  uma salada de maçã e queijo fresco, vai à  praia, dá-lhe  a mão e borrifa-a com água bem salgada. Ao serão vejam um filme juntos e pisquem um tinto unoaked. Pela noite alta deita a cabeça na almofada ao lado dela e sorri.

A alternativa é lavar os  dentes todos os dias e receber os elogios pela compostura.

07.09.22

Às vezes nas terapias proponho uma coisa ( uma mudança comportamental, uma interpretação etc). A pessoa contesta, discutimos e digo-lhe então está bem, faz/analisa como entendes, tens razão. A pessoa fica desconcertada e bem: para fazer/pensar como quer não precisava de pagar uma sessão.

Existem variantes. Conheço uma pessoa que inventa coisas sobre o passado dos outros. Nas discussões apresenta as invenções como factos. Conheci outra que  me dizia sempre "ora bem vejo que estamos aqui a chegar a um consenso"  o que impedia qualquer debate. E  há esta:

Tenho de ter sempre razão. Percebe... nas discussões e assim. Isto às vezes é cansativo,  mas fico desconsolada se não acontece.

Respondi-lhe assim:

Percebo a necessidade, é normal,  mas interessa-me  esse desconsolo. Não ter razão sobre uma coisa  implica apenas  a coisa. Ou porque não a  sabíamos ou porque dela estávamos distraídos. As coisas não sofrem, logo não se desconsolam.

Ora bem, apesar disto tu ficas desconsolada. Curioso, é como se tu fosses  as coisas sobre as quais discutes. É  como se tomasses as dores de uma data, do nome de um autor, de um número. É desconsolante.

05.09.22

Ouço isto muitas vezes. Fica-me nos ouvidos como o som mole da primeira  trinca  nas fraudes que vendem por aí a passar por  bolos de bacalhau ( quase sempre uma argamassa que nem é de bacalhau, é de paloco)

Sinto-me  desinteressada das coisas boas. Já não me dão prazer, acho-as enfadonhas. Culpo-me disto, é verdade, mas não posso evitar.

Ele há coisas mais fáceis de resolver. Julgamos que são as grandes tragédias as mais difíceis de arrumar, mas não é assim. Estas  resolvem-se por si: ou cais ou segue sem frente. Já a fadiga de Cápua implica uma actualização permanente.

Uma linha de escavação, conselho do meu amigo Epicteto ( Encheiridion, LIV): os prazeres mais repetidos são os que  raramente nos proporcionam a maior satisfação. Ora bem: teremos aqui um palão a contar lampanas? Não creio. Hoje como na velha Roma ( o gajo era grego mas viveu lá) queremos prazer. Nada contra, claro. A Beatriz Costa ( sim, a da franjinha) disse uma vez que o seu maior prazer era um copo de água fresca quando tinha sede. A menina da rádio resumiu numa frase a escola do Arco acerca disto: o mais estelífero prazer é o que satisfaz a necessidade. Se persegues os prazeres como um podengo maníaco, a tua necessidade acabará por ser...não ter prazer nenhum.

31.08.22

Demétrio Poliocertes ( o conquistador das cidades)  da Macedónia pergunta ao derrotado  Estilpo ( de Megara)  o que perdeu. Estilpo tinha perdido, numa das inúmeras guerras megáricas, a casa, a mulher, a família e a pátria. Estilpo respondeu ao rei: Nada. Tudo o que é meu está comigo.

Desculpem o latim do título mas no original fica muito melhor. O que Estilpo faz é ensinar ao tirano um velho mandamento estóico: nunca perdemos o que não é nosso. Mais, a fortuna ( sorte, destino)  do rei é que venceu a fortuna de Estilpo; traduzindo o título deste texto:  a tua sorte venceu a minha sorte.

Dirão que é tudo muito bonito na teoria mas na prática não funciona. Depende com quem falam. Por exemplo com um sobrevivente do extermínio nazi ( perdeu tudo) que refaz a sua vida na América e vive até aos noventa anos. Ou  com a senhora cuja história ja contei: perde dois filhos  num acidente inacreditável ( um incêndio com uns cartuchos de caçadeira), perde  o marido, lerpa com um cancro e aos setenta e tal  ainda procura tratamento para se sentir com mais energia.

No quotidiano vulgar de Lineu  a regra também se aplica. Quantas vezes nos enfurecemos ou desesperamos porque julgávamos nossas certas coisas ( um amor, um carro, um gato) que perdemos?

 

 

20.08.22

O mito de que a velhice traz sabedoria é um jogo  literário entre linhas, agradável de ver, mas só isso. Trato aqui da velhice, a verdadeira, a da Bayer.

Passo parte da  semana profissional com velhos. Não bispo que sabedoria possa trazer um corpo encalacrado, pernas inchadas, ouvidos de mercador, vista de toupeira, viuvez, solidão, vinte comprimidos por dia, dores avulsas, cabeça de manteiga. A acrescentar a tudo isto a certeza temperada de que o fim está próximo e é tão certo como os impostos.

Eles não falam de sabedoria nenhuma. Pelo contrário, dizem-me que já não percebem nada, que esqueceram quase tudo. Não compreendem o que os filhos e os médicos ( os anjos da morte) lhes dizem, não entendem por que razão não podem beber vinho ou o olival está ao abandono.

Uma secção particular vive no depósito. Ele há bons e maus mas são todos péssimos.O final da corrida ser passado numa casa que não conhecem e com pessoas que nunca tinham visto  ajuda imenso à sabedoria: sabem que é essa a verdadeira última morada e que  todos os dias são enterrados. Vivinhos da silva.

13.08.22

Como aqui informei os meus trinta e quatro leitores, um dos neoestóicos que levei este ano para  a tortura das férias foi o Gracián. Só tinha a Arte da Prudência, mas O  Homem UniversalHerói acrescentam à marinada e muito bem. Sendo um autor coevo de Espinoza, Quevedo, Pascal etc também bebe nas mesmas influências clássicas, sobretudo em Epicteto. Certo, mas para além da milionésima receita das virtudes do príncipe, os conselhos dos estóicos são sempre bons para suportar a praia.

O natural de Belmonte ( a espanhola)  recorda-nos uma crítica:  a paixão consiste não em ficarmos emocionados mas em deixarmo-nos ir e seguir esse movimento fortuito.  Como vêem, os estóicos não são os sacanas frios e insensíveis que o cinema ou os livrinhos de citações pintam: são piores. Talvez, mas úteis.

Vejamos duas situações práticas envolvendo automóveis:

Uma discussão no trânsito. O outro gajo sai do carro ao berros insultando os nosso progenitores ( ou o Benfica) e avança ameaçador. Se desligarmos do asco e da ira e o virmos apenas como um rotineiro parceiro do ringue, os movimentos ( um directo à seccção hepática por exemplo) saem harmoniosos e naturais. Nada fortuitos.

A segunda também é boa. Uma senhora  ( no caso de sermos um pobre hetero), traduzindo as maravilhas da evolução, estaciona ao nosso lado  e roga-nos que a ajudemos a resolver uma contractura muscular no glúteo superior esquerdo. Se apenas nos emocionarmos com o nascimento da ideia, guardamo-la e explicamos que temos de ir dar milho às pombas. Haverá mais glúteos na vida e sem estacionamento em paralelo.

12.08.22

Sou um maníaco de biografias. As mais antigas as de Suetónio sobre malucos romanos,  a mais recente a de um orgão, o Conselho da Revolução, uma cena bem esgalhada pela  Maria Inácia Rezola / David Castaño. Era a mais recente porque levei para a tortura da praia a do Cardoso Pires, autor Bruno Vieira Amaral. De escritores tenho poucas, prefiro as correspondências ( Unamuno/Pascoaes e H.Hesse /Thomas Mann são do lombinho).

Comecei então a ler o livro do BVA em posição de combate ( só um pé atrás, joelhos flectidos). À medida que as páginas corriam tirei as luvas, peguei numa toalha e numa água e sentei-me nos pequenos degraus de acesso ao ringue. Como nas melhores das melhores que tenho sobre políticos, a história de Cardoso Pires consegue isso mesmo: pôr-nos a ler uma história. Ou seja, o homem não  é nem esquartejado nem incensado, o autor não nos incomoda com as suas opiniões, os factos são postos na mesa bem atoalhada.

Ao leitor cabe escolher vitualhas mais ou menos apetitosas, voltar atrás  como numa história - desculpa, repete lá isso outra vez - antecipar desenvolvimentos. A escrita é seca e vivíssima como a do Cardoso Pires; e não conheço melhor forma de lhe  fazer justiça.

19.07.22

Eu era meio-figueirense. O meu pai tinha casas na Figueira da Foz. Eu era desterrado quase quase quatro meses. Na Páscoa, fins de semana etc idem. Tinha onze-doze anos e arrancava numa bicla sem matrícula nem capacete pela estrada fora,  passava a velha ponte da Gala e ia fingir que pescava robaletes para os lados das antigas salinas. Futebol era de manhã à noite. Os banhos de mar com bandeira vermelha eram os mais apetecíveis: Os nadadores -salvadores pagavam assim o meu silêncio ( e do meu irmão mais novo)  sobre o rodízio que faziam com as empregadas das casas ( as minhas irmãs, muito mais velhas,  também tinham). Uma família burguesa apressada sobre o marxismo pós-74 não teve tempo de perder os velhos hábitos.

Depois cresci e veio o Santana Lopes. Divorciei-me da Figueira. A terra ficou uma sempieterno arraial. Já pai de família, em cima de uma tragédia, descobri Caminha e Moledo. Nos últimos anos adoptei uma pequena aldeia alentejana a 700 metros do mar,  sem turistas e com uns percebes e um polvo da rochas por cuja  garantia se  necessário faço-me sócio do Sporting.

São férias? Não sei bem de quê. O corpo é o mesmo, a família é a mesma  ( e ainda bem), as maladias são as mesmas ( também ainda bem). Variam as leituras mas pouco, quase sempre estóicos ( este ano dois neoestóicos, Gracian e Shaftesbury) e o Record mais a excitação infantil da pré-época do meu Amor-Benfica.

Catita era umas férias de mim: Durante oito dias ser  um tipo simpático, tranquilo, generoso e com jeito para os trabalhos manuais.

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2022
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub