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PERDER BEM por Filipe Nunes Vicente

13.02.22

As memórias são sempre más: se são boas são más porque são de um tempo  irrepetível; se são más atormentam-nos.

Um psicanalista chanfrado, Ferenczi, num texto  com um título  ainda mais chanfrado ( The psychic effect of sunbath, 1914 )  discorre sobre a neurose de domingo . A ideia é que todas as memórias depressivas   ligadas a uma data ( dia, hora, ano)  específica  são um gatilho que faz regressar um estado de impulsos reprimidos ( uma constante psicanalítica). Ou seja, deprimimos porque nos lembramos da repressão.

É possivel, pese a chanfradice, que o homem tenha uma certa razão. Quando recordamos certos episódios recordamos também a impotência: apeteceu-me sei lá quê, só queria desaparecer etc, tive vontade de lhe  ir aos fagotes  etc. É curioso que talvez aconteça uma ligeira  variação com as boas memórias: ficamos deprimidos porque somos impotentes para regressar  a esse tempo e repetir a experiência. Pior ainda se não a aproveitámos como devia ser.

Utilizo a coisa em terapia: arquivar. E utilizo  quando a pessoa necessita de aprender a viver com uma  má memória ( das más mesmo). Recordemos a teoria do Ferenczi: deprimos porque recordamos a repressão de impulsos associados a determinado acontecimento. Não chega. Por vezes é mesmo a mágoa e a dor: ao natural.

Para conseguir arquivar precisamos de conceder à má memória  um lugar respeitável. Pode ser   uma morte, uma ofensa, um amor roubado, a coisa tem é de ter direito a coexistir com o resto da maralha. Ora... isto briga com a tendência natural de querer esquecer.

Arquivar significa então reconhecer a impotência diante do passado. Arrumar as más memórias numa  prateleira poeirenta porque elas fazem parte da mobília. Significa, num campo mais vasto, aceitar que  a vida é um caminho para  a derrota final e inexorável. E é um caminho radioso porque há várias metas volantes  deliciosas que só apreciamos se lhes dermos o devido valor. O valor da excepção.

 

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