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PERDER BEM por Filipe Nunes Vicente

09.04.22

Chorar alivia?

Tens um novo advogado, o dr Bucefálo. Nada na sua aparência  te  faz recordar que ele foi em tempos um general de Alexandre da Macedónia". Adoro o Kafka humorista-depressivo das pequenas histórias  ( algumas nem meia página têm)  e esta é a abertura  de "O novo advogado". Trago-a porque nos pode ajudar a responder à pergunta que titula este texto.

Nem sei quantas pessoas choram à minha frente todas as semanas.  Há muitos anos que é assim. O enorme carregador de lenços de papel é mudado todas as semanas. O lado bom: ainda sinto o sofrimento delas ( empatia dizem os burocratas). O lado menos agradável é que estas parlendas fazem-me pensar se não ando há muito tempo a  viver a expressão emocional dos outros. Uma espécie de vampiro de muletas. Adiante. Este choro é diferente, claro:  a pessoa está num contexto terapêutico e é  costume aliviar-se .O outro choro, o solitário,  interessa-me mais.  Deixo de fora o choro de alegria, não me diz nada  a não ser no estádio da Luz.

Aprendi que se choramos de angústia antecipada o choro não alivia, até aumenta a ansiedade, mas se choramos por causa do que já se passou melhoramos  um  cadinho. O mistério? Por acaso nenhum. A descarga emocional é inevitável e obrigatória e a alma alivia-se como a bexiga. Já o amargo das lágrimas, o que interessa, depende se somos o dr. Bucéfalo ou um general de Alexandre: prefiro o advogado experiente nas aboízes das leis ao general deprimido na enfermaria.

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